segunda-feira, fevereiro 23, 2026
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Lotus de Ayrton Senna vai a leilão e pode ultrapassar R$ 62 milhões

Ícone da era turbo e das cores preta e dourada, monoposto simboliza o capítulo final de uma das fases mais lendárias da Fórmula 1

Existe carro que é rápido. Existe carro que é histórico. E existe carro que parece ter sido desenhado com tinta épica. O Lotus 98T preto e dourado guiado por Senna em 1986 pertence a essa terceira categoria.

Um dos quatro chassis utilizados naquela temporada, o 98T-3 será leiloado pela RM Sotheby’s em um processo de lances fechados, com estimativa que varia entre aproximadamente R$ 49,5 milhões e R$ 62,6 milhões. Não é apenas uma peça rara. É um fragmento sólido da era mais selvagem da Fórmula 1.

O carro das vitórias e das poles

Foi com esse chassi que Senna venceu o GP dos Estados Unidos e o GP da Espanha em 1986. Além disso, cravou cinco pole positions e subiu ao pódio outras três vezes em apenas oito participações com o carro.

O 98T representava a evolução direta do 97T, modelo que havia dado ao brasileiro sua primeira vitória na F1 no ano anterior. Compacto, agressivo e refinado, ele aproveitou as mudanças de regulamento que reduziram o limite de combustível, exigindo soluções mais eficientes no desenho do tanque e na distribuição de peso.

Foto: Reprodução/RM Sotheby’s

Projetado por Gérard Ducarouge, o monoposto combinava alumínio e fibra de carbono em uma arquitetura que explorava o limite tecnológico da década de 1980. Era leve, rígido e brutal.

A era das granadas turbo

Sob a carroceria preta com filetes dourados da John Player Special, vivia um V6 1.5 turbo fornecido pela Renault. Em configuração de corrida, o motor girava perto de 12.500 rpm e entregava algo em torno de 900 cavalos. Nas sessões de classificação, a história ficava ainda mais extrema, com versões que ultrapassavam os 1.000 cavalos por algumas voltas antes de praticamente se autodestruírem.

Era uma Fórmula 1 onde potência e risco caminhavam juntos. Nada de unidades híbridas sofisticadas e mapas eletrônicos milimétricos. O acelerador era um convite à coragem.

O fim simbólico de uma linhagem

O 98T também carrega um peso emocional. Foi o último grande Lotus competitivo com as clássicas cores preta e dourada na F1. Em 1987, a equipe abandonou a pintura icônica, adotou o amarelo da Camel e iniciou uma nova fase técnica. No ano seguinte, Senna partiu para a McLaren, onde iniciaria outro capítulo histórico.

A partir dali, a antiga Team Lotus entrou em declínio até desaparecer definitivamente em 1994, encerrando uma trajetória que havia sido construída com títulos e revoluções técnicas desde os anos 1960.

Por isso, o 98T não é apenas um carro de corrida antigo. Ele representa o auge da era turbo, a despedida das cores mais icônicas do grid e um dos momentos em que o talento de Senna encontrou uma máquina à altura de sua ousadia.

No leilão, alguém vai comprar metal, carbono e história. Mas o que realmente estará em jogo é algo maior: o eco de uma época em que a Fórmula 1 era crua, visceral e dourada como aquelas linhas que cruzavam o preto absoluto do Lotus.

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